Os Souza · Capítulo 1

Por que eu não me chamo Galvão?

A pergunta que abre esta família

Existe um fidalgo no começo desta história: Leandro Galvão de Araújo e Oliveira, da vila de Porto de Mós, nascido por volta de 1665, fidalgo da Casa Real, tenente de cavalaria em Lisboa. Doze gerações acima de mim. E ali surgiu a pergunta que dá título a este capítulo: se a minha linha passa por ele, por que eu me chamo Pacheco de Souza e não Galvão?

A resposta está no caminho que o sangue fez até mim. Sobrenome é roupa: troca-se a cada casamento, conforme a moda, a herança ou o interesse do momento. Sangue é a pessoa: passa intacto, de mãe em filho, de pai em filha, sem pedir licença aos nomes. Entre o fidalgo de Porto de Mós e a menina nascida em Goiânia em 1986, o nome da família mudou quatro vezes. O sangue, esse, não pulou uma única geração.

Este capítulo conta essa viagem. Cada parada tem um documento com nome, data e lugar — porque um dos meus compromissos ao escrever esse livro é só contar o que se pode provar. Comece pela árvore nas páginas seguintes; depois, cada capítulo deste volume volta a um dos degraus e conta a história por dentro.

“Sobrenome é roupa, e sangue é a pessoa.”
O fio deste livro

Os Souza · Capítulo 1

A linha de sangue

Do Porto de Mós de 1665 à Goiânia de 1986
~1665
Leandro Galvão de Araújo e Oliveira, Porto de Mós, Portugal. Fidalgo da Casa Real. Aqui começa, por enquanto, a história provável.
~1700
José Galvão de Moura e Lacerda, Lisboa. Fidalgo. Emigrou e casou em Santos, no Brasil. O nome já mudou: entrou o “de Moura Lacerda” da família da avó.
1746
José Pedro Galvão de Moura Lacerda, Santos-SP. Brigadeiro do exército português, moço fidalgo da Casa Real.
1788
Francisco Vital Galvão de Moura Lacerda, batizado na Sé de São Paulo. Tenente-coronel. Mudou-se para Goiás, para a freguesia de Santo Antônio do Chapéu.
1815
Rita Galvão de Moura Lacerda, Goiás. Casou com Manuel Jacó de Araújo Godinho. O filho dela nasceu com o sobrenome do pai: Araújo Godinho.
1839
Umbelino, Arraias. Nasceu Araújo Godinho, morreu Galvão de Moura Lacerda — o sobrenome veio da mãe, Rita. Casou com Maria Anastacia Delfina Denemy, filha de um alsaciano. Segunda troca de nome.
Os Souza · Capítulo 1 · Janela de lugar

Porto de Mós, por volta de 1665

onde o fidalgo nasceu — e como a vila se chama até hoje

Porto de Mós fica no oeste de Portugal, no distrito de Leiria, a cerca de 120 quilômetros ao norte de Lisboa — hoje, a mesma distância pela autoestrada. O nome vem do latim Portus de Molis, “o porto das mós”: a primeira menção escrita aparece numa carta de delimitação do Couto do Mosteiro de Alcobaça, em 1183, e a terra viveu de moer grão — as mós de pedra fabricadas ali desciam o rio Lena e davam nome à vila.

No século XVII, quando o Leandro nasceu, a vila era um ponto de passagem entre Lisboa e o norte, no coração do Maciço Calcário Estremenho. O castelo — reconstruído no século XVI pelo Conde de Ourém com planta pentagonal e torreões, hoje Monumento Nacional — dominava o vale do Lena. A vida era rural: azenhas no rio, moinhos de vento nos altos, olivais e campos de trigo nas terras férteis do vale. A região guarda a memória da Batalha de Aljubarrota (1385): na véspera, o exército português se aquartelou na vila e no castelo; depois da vitória, o rei D. João I doou o condado de Porto de Mós ao condestável Nuno Álvares Pereira. Camões chamou a vila de “vila forte” no canto VIII de Os Lusíadas.

Foi dessa vila de mós e campos que saiu a família: o Leandro para Lisboa, onde serviu como tenente de cavalaria; seu filho José, para o Brasil. A vila existe até hoje com o mesmo nome, a mesma igreja matriz de São João Batista e São Pedro — e os registros paroquiais dela são a próxima parada da pesquisa.

Os Souza · Capítulo 1 · Janela de lugar

De Santos ao sertão de Goiás

por que a família atravessou o Brasil — e como era essa travessia

O filho do Leandro, José Galvão de Moura e Lacerda, desembarcou em Santos, no litoral da capitania de São Paulo, no início do século XVIII. Santos era então o porto de entrada das minas: o ouro de Minas Gerais descia a serra e embarcava para Lisboa, e o governo português cuidava do porto com tanto zelo que o mantinha sob jurisdição direta do Rio de Janeiro. Era uma vila de trapiches de madeira, açúcar e tropas — pobre e movimentada ao mesmo tempo. Ali nasceu, em 1746, o brigadeiro José Pedro.

Uma geração depois, a família subiu o sertão. O Caminho de Goiás — a picada aberta no século XVIII para ligar Minas aos garimpos do oeste — era uma trilha de semanas, a cavalo e a mula, entre serras, rios e povoações de passagem. Depois do ouro, o que puxava gente para Goiás eram os campos: no sul e no norte da capitania, famílias de Minas e de São Paulo ocupavam terras para a pecuária e a lavoura de abastecimento ao longo do caminho. Foi nesse movimento que Francisco Vital, o tenente-coronel batizado na Sé de São Paulo em 1788, veio parar na freguesia de Santo Antônio do Chapéu — hoje Arraias, Tocantins, uma região de garimpos antigos e campos abertos onde a família se enraizou por três gerações.

Entender essa geografia é entender as decisões: o fidalgo sai de uma vila pequena para a corte; o filho sai da corte para o porto do ouro; o neto sai do porto para o sertão dos campos. Cada passo segue a economia do tempo — e cada passo deixa um documento que hoje nos deixa seguir o rastro.

Os Souza · Capítulo 1

A linha de sangue

continuação — e a chegada ao nome de hoje
1866
Edmundo Galvão de Moura Lacerda, Goiás Velho. Lavrador, medalha de ouro na Exposição Nacional de Milho de 1929, em São Paulo.
1894
Celuta Denemy Galvão de Moura Lacerda, Cuiabá-MT. Casou com Benedito de Souza, de Goiás. Terceira troca: os filhos dela assinam Souza.
1920
Plínio de Souza, Goiás Velho. Casou com Gladys Franco, de Tupaçiguara-MG. A casa de colunas da rua 68, nº 567, em Goiânia.
1956
Plínio de Souza Júnior, Goiânia. Casou com Moema Porto Pacheco, filha de Edú Pacheco, de Ipameri. Quarta troca: o Pacheco entra pelo lado da mãe.
1986
Ana Carolina Pacheco de Souza, Goiânia. Doze gerações depois do Porto de Mós — e nenhuma delas chamava Galvão.

Quatro trocas de sobrenome, uma única linha de sangue. O que este volume conta é o que sobreviveu a todas elas: as histórias, os documentos, as casas e os rostos de cada degrau.

Os Souza · Capítulo 1

O lugar no mundo

Antes dos nomes, o chão. A linha de sangue atravessa o Atlântico — de Porto de Mós, em Portugal, até a Goiânia onde nasci, cerca de 7.700 km de distância e doze gerações depois.

Mapa em aquarela: de Porto de Mós, Portugal, a Goiânia, Brasil

A travessia — Porto de Mós (Leiria, Portugal) → Santos (1718) → Goiás Velho → Goiânia (1986). Mapa em aquarela, estilo de ilustração antiga.

Bandeira de Porto de Mós
+
Bandeira de Portugal
Porto de Mós · Portugal

Bandeira de Santos
+
Bandeira do Brasil
Santos · Brasil

Castelo de Porto de Mós

Porto de Mós hoje — o castelo que guarda a vila desde o século XII. Foi por aqui que o fidalgo Leandro Galvão de Oliveira andou no fim do século XVII, e onde os paroquiais que ainda faltam esperam ser lidos.

Os Souza · Capítulo 1
Árvore da linha de sangue, 12 gerações

A árvore inteira — do casal João Aparício e Maria Galvão de Oliveira (Porto de Mós, ~1631) até Carol (Goiânia, 1986). Cada elo comprovado por documento primário. Selos: ✓ documentado, ◇ tradição, ∼ contexto.

Os Souza · Capítulo 1

O que a pesquisa ainda não contou

e por que este capítulo permanece aberto

Um dos meus compromissos ao escrever este livro é não fechar este primeiro capítulo antes de esgotar todas as possibilidades de pesquisa. Hoje, a fronteira está no casal João Aparício e Maria Galvão de Oliveira, de Porto de Mós, nascidos por volta de 1631 — avós do fidalgo Leandro, nomeados com nome completo nos processos de 1708 e 1718 que a Torre do Tombo guarda. Quem foram os pais deles? Ainda não sabemos. As provanças do irmão de Leandro, Alexandre, que pediu o mesmo hábito dois anos antes, estão sendo lidas agora — e podem responder.

Acima deles, Portugal inteiro ainda espera: registros paroquiais do século XVII, livros de chancelaria, talvez um segundo fidalgo na família. A pesquisa continua — e quando avançar, esta árvore ganha mais um degrau e este capítulo se reescreve. É o combinado.

Nos capítulos seguintes, descemos da fronteira para o presente: o fidalgo e o hábito que nunca veio, o brigadeiro de Santos, o coronel que atravessou o Brasil até Goiás, a Rita que trocou o nome dos filhos, o Umbelino que nasceu com um sobrenome e morreu com outro, o Edmundo lavrador campeão, a Celuta que fundou o ramo dos Souza, o Plínio e a casa de colunas — até chegar a esta geração, que guarda tudo isso em um livro.

Fontes deste capítulo — Habilitação do Leandro Galvão de Araújo e Oliveira, Ordem de Cristo, 1720 (Torre do Tombo, PT/TT/MCO/A-C/002-010/0017/00007, 48 págs.); Habilitação do Santo Ofício, 1708 (Torre do Tombo, PT/TT/TSO-CG/A/008-002/3581, 12 págs.); Habilitação do irmão Alexandre Galvão de Oliveira, 1718 (Torre do Tombo, PT/TT/MCO/A-C/002-001/0041/00006, 10 págs.); batismo do Francisco Vital, 1788, Sé de São Paulo (FamilySearch, ark 1:1:XVWV-H8Y); Genealogia Paulistana, Silva Leme, vol. VII, Tit. Freitas, p. 194–201 (1905); certidão de casamento 1863, Santana de Goiás, livro 4, fl. 77v (transcrição do Arquivo Diocesano Dom Tomás Balduino); lápide do Umbelino e Maria Denemy, Pilar de Goiás (transcrição de Dom Phenee Silva, Carta Mensal do Colégio Brasileiro de Genealogia nº 24, 1992); certidão de óbito do Benedito de Souza, 1961. Contexto histórico: Câmara Municipal de Porto de Mós (história da vila, foral de 1305, castelo); IBGE, histórico de Arraias-TO; estudos sobre o Caminho de Goiás e a colonização do sul de Goiás no século XIX; história do Porto de Santos.

Os Souza · Capítulo 1

O que a pesquisa ainda não contou

e por que este capítulo permanece aberto

Um dos meus compromissos ao escrever este livro é não fechar este primeiro capítulo antes de esgotar todas as possibilidades de pesquisa. Hoje, a fronteira está no casal João Aparício e Maria Galvão de Oliveira, de Porto de Mós, nascidos por volta de 1631 — avós do fidalgo Leandro, nomeados com nome completo nos processos de 1708 e 1718 que a Torre do Tombo guarda. Quem foram os pais deles? Ainda não sabemos. As provanças do irmão de Leandro, Alexandre, que pediu o mesmo hábito dois anos antes, estão sendo lidas agora — e podem responder.

Acima deles, Portugal inteiro ainda espera: registros paroquiais do século XVII, livros de chancelaria, talvez um segundo fidalgo na família. A pesquisa continua — e quando avançar, esta árvore ganha mais um degrau e este capítulo se reescreve. É o combinado.

Nos capítulos seguintes, descemos da fronteira para o presente: o fidalgo e o hábito que nunca veio, o brigadeiro de Santos, o coronel que atravessou o Brasil até Goiás, a Rita que trocou o nome dos filhos, o Umbelino que nasceu com um sobrenome e morreu com outro, o Edmundo lavrador campeão, a Celuta que fundou o ramo dos Souza, o Plínio e a casa de colunas — até chegar a esta geração, que guarda tudo isso em um livro.

Fontes deste capítulo — Habilitação do Leandro Galvão de Araújo e Oliveira, Ordem de Cristo, 1720 (Torre do Tombo, PT/TT/MCO/A-C/002-010/0017/00007, 48 págs.); Habilitação do Santo Ofício, 1708 (Torre do Tombo, PT/TT/TSO-CG/A/008-002/3581, 12 págs.); Habilitação do irmão Alexandre Galvão de Oliveira, 1718 (Torre do Tombo, PT/TT/MCO/A-C/002-001/0041/00006, 10 págs.); batismo do Francisco Vital, 1788, Sé de São Paulo (FamilySearch, ark 1:1:XVWV-H8Y); Genealogia Paulistana, Silva Leme, vol. VII, Tit. Freitas, p. 194–201 (1905); certidão de casamento 1863, Santana de Goiás, livro 4, fl. 77v (transcrição do Arquivo Diocesano Dom Tomás Balduino); lápide do Umbelino e Maria Denemy, Pilar de Goiás (transcrição de Dom Phenee Silva, Carta Mensal do Colégio Brasileiro de Genealogia nº 24, 1992); certidão de óbito do Benedito de Souza, 1961. Contexto histórico: Câmara Municipal de Porto de Mós (história da vila, foral de 1305, castelo); IBGE, histórico de Arraias-TO; estudos sobre o Caminho de Goiás e a colonização do sul de Goiás no século XIX; história do Porto de Santos.

Este capítulo permanece aberto: quando a pesquisa avançar, ele se reescreve. Quer receber o próximo?

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