Por que eu não me chamo Galvão?
Existe um fidalgo no começo desta história: Leandro Galvão de Araújo e Oliveira, da vila de Porto de Mós, nascido por volta de 1665, fidalgo da Casa Real, tenente de cavalaria em Lisboa. Doze gerações acima de mim. E ali surgiu a pergunta que dá título a este capítulo: se a minha linha passa por ele, por que eu me chamo Pacheco de Souza e não Galvão?
A resposta está no caminho que o sangue fez até mim. Sobrenome é roupa: troca-se a cada casamento, conforme a moda, a herança ou o interesse do momento. Sangue é a pessoa: passa intacto, de mãe em filho, de pai em filha, sem pedir licença aos nomes. Entre o fidalgo de Porto de Mós e a menina nascida em Goiânia em 1986, o nome da família mudou quatro vezes. O sangue, esse, não pulou uma única geração.
Este capítulo conta essa viagem. Cada parada tem um documento com nome, data e lugar — porque um dos meus compromissos ao escrever esse livro é só contar o que se pode provar. Comece pela árvore nas páginas seguintes; depois, cada capítulo deste volume volta a um dos degraus e conta a história por dentro.
A linha de sangue
Porto de Mós, por volta de 1665
Porto de Mós fica no oeste de Portugal, no distrito de Leiria, a cerca de 120 quilômetros ao norte de Lisboa — hoje, a mesma distância pela autoestrada. O nome vem do latim Portus de Molis, “o porto das mós”: a primeira menção escrita aparece numa carta de delimitação do Couto do Mosteiro de Alcobaça, em 1183, e a terra viveu de moer grão — as mós de pedra fabricadas ali desciam o rio Lena e davam nome à vila.
No século XVII, quando o Leandro nasceu, a vila era um ponto de passagem entre Lisboa e o norte, no coração do Maciço Calcário Estremenho. O castelo — reconstruído no século XVI pelo Conde de Ourém com planta pentagonal e torreões, hoje Monumento Nacional — dominava o vale do Lena. A vida era rural: azenhas no rio, moinhos de vento nos altos, olivais e campos de trigo nas terras férteis do vale. A região guarda a memória da Batalha de Aljubarrota (1385): na véspera, o exército português se aquartelou na vila e no castelo; depois da vitória, o rei D. João I doou o condado de Porto de Mós ao condestável Nuno Álvares Pereira. Camões chamou a vila de “vila forte” no canto VIII de Os Lusíadas.
Foi dessa vila de mós e campos que saiu a família: o Leandro para Lisboa, onde serviu como tenente de cavalaria; seu filho José, para o Brasil. A vila existe até hoje com o mesmo nome, a mesma igreja matriz de São João Batista e São Pedro — e os registros paroquiais dela são a próxima parada da pesquisa.
De Santos ao sertão de Goiás
O filho do Leandro, José Galvão de Moura e Lacerda, desembarcou em Santos, no litoral da capitania de São Paulo, no início do século XVIII. Santos era então o porto de entrada das minas: o ouro de Minas Gerais descia a serra e embarcava para Lisboa, e o governo português cuidava do porto com tanto zelo que o mantinha sob jurisdição direta do Rio de Janeiro. Era uma vila de trapiches de madeira, açúcar e tropas — pobre e movimentada ao mesmo tempo. Ali nasceu, em 1746, o brigadeiro José Pedro.
Uma geração depois, a família subiu o sertão. O Caminho de Goiás — a picada aberta no século XVIII para ligar Minas aos garimpos do oeste — era uma trilha de semanas, a cavalo e a mula, entre serras, rios e povoações de passagem. Depois do ouro, o que puxava gente para Goiás eram os campos: no sul e no norte da capitania, famílias de Minas e de São Paulo ocupavam terras para a pecuária e a lavoura de abastecimento ao longo do caminho. Foi nesse movimento que Francisco Vital, o tenente-coronel batizado na Sé de São Paulo em 1788, veio parar na freguesia de Santo Antônio do Chapéu — hoje Arraias, Tocantins, uma região de garimpos antigos e campos abertos onde a família se enraizou por três gerações.
Entender essa geografia é entender as decisões: o fidalgo sai de uma vila pequena para a corte; o filho sai da corte para o porto do ouro; o neto sai do porto para o sertão dos campos. Cada passo segue a economia do tempo — e cada passo deixa um documento que hoje nos deixa seguir o rastro.
A linha de sangue
Quatro trocas de sobrenome, uma única linha de sangue. O que este volume conta é o que sobreviveu a todas elas: as histórias, os documentos, as casas e os rostos de cada degrau.
O lugar no mundo
Antes dos nomes, o chão. A linha de sangue atravessa o Atlântico — de Porto de Mós, em Portugal, até a Goiânia onde nasci, cerca de 7.700 km de distância e doze gerações depois.

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O que a pesquisa ainda não contou
Um dos meus compromissos ao escrever este livro é não fechar este primeiro capítulo antes de esgotar todas as possibilidades de pesquisa. Hoje, a fronteira está no casal João Aparício e Maria Galvão de Oliveira, de Porto de Mós, nascidos por volta de 1631 — avós do fidalgo Leandro, nomeados com nome completo nos processos de 1708 e 1718 que a Torre do Tombo guarda. Quem foram os pais deles? Ainda não sabemos. As provanças do irmão de Leandro, Alexandre, que pediu o mesmo hábito dois anos antes, estão sendo lidas agora — e podem responder.
Acima deles, Portugal inteiro ainda espera: registros paroquiais do século XVII, livros de chancelaria, talvez um segundo fidalgo na família. A pesquisa continua — e quando avançar, esta árvore ganha mais um degrau e este capítulo se reescreve. É o combinado.
Nos capítulos seguintes, descemos da fronteira para o presente: o fidalgo e o hábito que nunca veio, o brigadeiro de Santos, o coronel que atravessou o Brasil até Goiás, a Rita que trocou o nome dos filhos, o Umbelino que nasceu com um sobrenome e morreu com outro, o Edmundo lavrador campeão, a Celuta que fundou o ramo dos Souza, o Plínio e a casa de colunas — até chegar a esta geração, que guarda tudo isso em um livro.
Fontes deste capítulo — Habilitação do Leandro Galvão de Araújo e Oliveira, Ordem de Cristo, 1720 (Torre do Tombo, PT/TT/MCO/A-C/002-010/0017/00007, 48 págs.); Habilitação do Santo Ofício, 1708 (Torre do Tombo, PT/TT/TSO-CG/A/008-002/3581, 12 págs.); Habilitação do irmão Alexandre Galvão de Oliveira, 1718 (Torre do Tombo, PT/TT/MCO/A-C/002-001/0041/00006, 10 págs.); batismo do Francisco Vital, 1788, Sé de São Paulo (FamilySearch, ark 1:1:XVWV-H8Y); Genealogia Paulistana, Silva Leme, vol. VII, Tit. Freitas, p. 194–201 (1905); certidão de casamento 1863, Santana de Goiás, livro 4, fl. 77v (transcrição do Arquivo Diocesano Dom Tomás Balduino); lápide do Umbelino e Maria Denemy, Pilar de Goiás (transcrição de Dom Phenee Silva, Carta Mensal do Colégio Brasileiro de Genealogia nº 24, 1992); certidão de óbito do Benedito de Souza, 1961. Contexto histórico: Câmara Municipal de Porto de Mós (história da vila, foral de 1305, castelo); IBGE, histórico de Arraias-TO; estudos sobre o Caminho de Goiás e a colonização do sul de Goiás no século XIX; história do Porto de Santos.
O que a pesquisa ainda não contou
Um dos meus compromissos ao escrever este livro é não fechar este primeiro capítulo antes de esgotar todas as possibilidades de pesquisa. Hoje, a fronteira está no casal João Aparício e Maria Galvão de Oliveira, de Porto de Mós, nascidos por volta de 1631 — avós do fidalgo Leandro, nomeados com nome completo nos processos de 1708 e 1718 que a Torre do Tombo guarda. Quem foram os pais deles? Ainda não sabemos. As provanças do irmão de Leandro, Alexandre, que pediu o mesmo hábito dois anos antes, estão sendo lidas agora — e podem responder.
Acima deles, Portugal inteiro ainda espera: registros paroquiais do século XVII, livros de chancelaria, talvez um segundo fidalgo na família. A pesquisa continua — e quando avançar, esta árvore ganha mais um degrau e este capítulo se reescreve. É o combinado.
Nos capítulos seguintes, descemos da fronteira para o presente: o fidalgo e o hábito que nunca veio, o brigadeiro de Santos, o coronel que atravessou o Brasil até Goiás, a Rita que trocou o nome dos filhos, o Umbelino que nasceu com um sobrenome e morreu com outro, o Edmundo lavrador campeão, a Celuta que fundou o ramo dos Souza, o Plínio e a casa de colunas — até chegar a esta geração, que guarda tudo isso em um livro.
Fontes deste capítulo — Habilitação do Leandro Galvão de Araújo e Oliveira, Ordem de Cristo, 1720 (Torre do Tombo, PT/TT/MCO/A-C/002-010/0017/00007, 48 págs.); Habilitação do Santo Ofício, 1708 (Torre do Tombo, PT/TT/TSO-CG/A/008-002/3581, 12 págs.); Habilitação do irmão Alexandre Galvão de Oliveira, 1718 (Torre do Tombo, PT/TT/MCO/A-C/002-001/0041/00006, 10 págs.); batismo do Francisco Vital, 1788, Sé de São Paulo (FamilySearch, ark 1:1:XVWV-H8Y); Genealogia Paulistana, Silva Leme, vol. VII, Tit. Freitas, p. 194–201 (1905); certidão de casamento 1863, Santana de Goiás, livro 4, fl. 77v (transcrição do Arquivo Diocesano Dom Tomás Balduino); lápide do Umbelino e Maria Denemy, Pilar de Goiás (transcrição de Dom Phenee Silva, Carta Mensal do Colégio Brasileiro de Genealogia nº 24, 1992); certidão de óbito do Benedito de Souza, 1961. Contexto histórico: Câmara Municipal de Porto de Mós (história da vila, foral de 1305, castelo); IBGE, histórico de Arraias-TO; estudos sobre o Caminho de Goiás e a colonização do sul de Goiás no século XIX; história do Porto de Santos.
Este capítulo permanece aberto: quando a pesquisa avançar, ele se reescreve. Quer receber o próximo?